Bem Vindo, visitante! [ Cadastre-se | Entrar

Ilha da Conceição

| Região Norte | 22 de outubro de 2007

Situada em frente a antiga enseada de São Lourenço, a Ilha da Conceição teve toda sua história de ocupação basicamente relacionada ao mar.

No passado, a área sediava uma fazenda com uma capela datada de 1711, que foi derrubada, parede por parede, sob alegação do padre da necessidade de reforçá-las. Na época ocorreram discussões acirradas com os moradores porque a medida que se construía uma parede por fora, o padre permitia a demolição da parede original. Hoje a capela transformou-se na Igreja de Nossa Senhora da Conceição. A sede da fazenda localizava-se onde atualmente funciona o Centro Social Urbano (CESU).

Há referências quanto a existência de gado na Ilha, presença esta associada ao matadouro que funcionava no Barreto, em frente a um dos antigos cais de acesso à ilha.

Entretanto, a partir do início deste século, se estabelece a relação da ilha com a indústria naval, estreitada com a construção do Porto de Niterói, inaugurado em 1927. Esta relação se manteve quando a ilha se ligou ao continente, em 1958.

No espaço pertencente a Leopoldina Railway (inglesa) instalaram-se na ilha, desde 1908, um estaleiro do Loyd Brasileiro, a oeste, e uma empresa inglesa, ao norte – a Wilson Sons, que fornecia pedras (retiradas da própria ilha) para lastro de navios, para a construção de cais e, também, carvão para navios e locomotivas.

Vários eram os interesses da Leopoldina Railway, principalmente a instalação de um terminal de carvão junto a seu cais. O terminal ferroviário de Niterói foi inaugurado em 1930, junto ao Porto, e a Leopoldina Railway cogitava construir uma linha férrea ligando os dois lados da ilha, para transporte de carvão – então feito pelo mar, através de chatas.

Com a Wilson Sons começa a ocupação efetiva da ilha, incrementada nas décadas de 20 e 30 com imigrantes portugueses trazidos para trabalharem nas suas carvoarias. Havia uma relação respeitosa empresa/empregado, pois os imigrantes iam uma vez por ano a Portugal, de navio, por conta da empresa.

Os trabalhadores ocupavam casas de pau-a-pique nas áreas da Leopoldina Railway, que não permitia construções em alvenaria. Esta ocupação era consentida pela empresa, que apenas cobrava um pequeno aluguel, sem nenhuma preocupação em inibí-las ou em oficializá-las por contrato.

Com tal facilidade, pescadores, operários navais, ferroviários e principalmente imigrantes portugueses, trazidos por informações chegadas à Portugal através dos conterrâneos que aqui viviam, mudam-se para a ilha. Os primeiros em busca de casa própria, os segundos por uma vida nova e também incentivados pelo fluxo migratório no sentido Europa/América existente à época.

Face a indiferença da Leopoldina Railway surgiram construções em alvenaria. O material para construção chegava em barcos e as residências eram erguidas pelos próprios moradores.

Tentando organizar a ocupação das terras, surgiu na ilha um topógrafo da empresa que, segundo alguns, defendia interesses estranhos aos dos moradores (o dele próprio). Desta forma as casas iam sendo erguidas, notando-se hoje um acentuado desalinhamento nas construções.

A Ilha da Conceição, como se configura atualmente, foi constituída a partir da ligação de duas ilhas que, dependendo da maré, podiam unir-se ou se separar por um canal (navegável), sendo formada geomorfologicamente por três morros principais.

A primeira ilha, onde localiza-se o Morro da Fábrica, situa-se na atual entrada do bairro, cujo nome deve-se a existência de uma fábrica de álcool-motor, depois transformada em fábrica de doce e por último transformada em fábrica de sardinha, sendo posteriormente desativada. Esta parte da Ilha teve o seu loteamento feito de forma regular pelo Banco Costa Monteiro, onde observa-se melhor padrão construtivo.

A segunda ilha, área da Leopoldina, era formada pelo Morro do MIC, antigo morro da Wilson Sons, e pelo Morro da Capela.

A ligação entre as duas ilhas ocorreu quando da construção do Porto de Niterói, utilizando-se a areia vinda da dragagem do cais. Esta zona arenosa que se formou foi sendo definitivamente aterrada pelos próprios moradores, conforme as construções iam surgindo.

O abastecimento de água era feito por um terminal da Leopoldina e a energia elétrica foi negociada com o Loyd Brasileiro, que permitia a extensão de cabos do estaleiro até as residências.

Em 1958, com a conclusão da ligação ao continente, foi aberta a principal rua da ilha, a Mário Neves, pela Companhia Nacional de Saneamento que tinha interesse na área. Deu-se então, a ocupação da orla da Ilha, principalmente pelas indústrias navais, acabando dessa forma com os banhos de mar dos moradores, já prejudicados pela poluição causada pela criação de suínos em liberdade, intensa à época.

Uma luta antiga dos moradores é pela posse da terra que pertencia à Leopoldina Railway. Estatizada pelo governo federal, tornou-se Estrada de Ferro Leopoldina, sendo posteriormente anexada à Rede Ferroviária Federal S.A.

Em 1987 a Prefeitura Municipal de Niterói comprou as terras litigiosas, com o compromisso de vendê-las aos seus ocupantes.

A Ilha da Conceição é considerada uma colônia portuguesa, cuja presença é marcada pela tradicional festa de Nossa Senhora da Conceição, que peculiarmente tem a comissão de organização constituída com paridade entre portugueses e brasileiros. Esta festa era aguardada ansiosamente por toda a população e contava com a presença de representações diversas da colônia portuguesa, trazidas em barcos emprestados pelos estaleiros. Quase todos os namoros da Ilha iniciavam-se nessas festas.

Entretanto, apesar desta manifestação religiosa, o primeiro padre específico para a paróquia da Ilha chega em 1968. Até então os casamentos, batizados e demais serviços religiosos eram feitos pelo pároco do Barreto.

Além da festa de Nossa Senhora da Conceição, outro prazer dos habitantes era o cinema que existia na Ilha.

Com uma capacidade organizativa muito grande, talvez pela sua formação de imigrantes que, em terras estranhas precisavam se organizar, a população da Ilha teve conquistas sociais de relevância.

- O empréstimo da energia elétrica pelo estaleiro do Loyd Brasileiro;

- A regularização do fornecimento de energia elétrica pela CBEE (Cia. Brasileira de Energia Elétrica);

- A luta pela posse da terra;

- O reservatório da Cedae;

- A luta pela escola local, atualmente Escola Estadual Zuleika Raposo Valladares, cuja primeira etapa foi construída através de recursos obtidos pelos próprios moradores.

Outro fator a que se pode creditar a capacidade organizativa do bairro é a presença, entre seus moradores, de muitos operários navais e ferroviários, categorias combativas e bem organizadas sindicalmente até 1964.

O Centro Pró-Melhoramentos (CPM) do bairro foi fundado em 1958 pelo grupo mais organizado dos moradores (os portugueses ficam de fora) e teve papel importante nas conquistas obtidas pelos que residiam na ilha. Mas a diretoria foi afastada em 1964, acusada de ser “comunista”, denunciada pelos que a ela faziam oposição no bairro. Os processos contra os diretores do CPM não foram adiante porque o militar encarregado do inquérito exigiu provas concretas, não obtidas pelos acusadores.

A paixão dos moradores podia ser sentida pela rivalidade existente entre os dois clubes locais, cujos jogos terminavam sempre em briga generalizada. Alguns jogos foram realizados fora do bairro a fim de se evitar o confronto das torcidas. O Esporte Clube Azul e Branco, cujo campo existe até hoje, data de 1926 e o Esporte Clube Luzitano, fundado em 1935, possui grande sede social, mas o seu campo foi ocupado para construção da escola estadual.

Uma Subdelegacia chegou a funcionar na ilha, com um titular protegido por políticos com interesses na área. O subdelegado tornou-se uma espécie de administrador informal, controlando desde a marcação das terras até a distribuição de energia elétrica.

A primeira linha de ônibus chegou junto com a ligação da ilha ao continente, em 1958, ainda trafegando por ruas de barro batido. A linha era atendida por veículos da antiga Companhia Serve, veículos em péssimo estado de conservação e com freqüência duvidosa.

A dinâmica demográfica está em processo de desaceleração. As taxas de crescimento são pequenas quando comparadas com as médias municipais. O bairro é adensado e de ocupação antiga.

CARACTERÍSTICAS ATUAIS E TENDÊNCIAS:

Com a construção da Ponte Rio-Niterói, na década de 70, ocorre uma grande mudança na parte da ilha voltada para o continente, com a abertura de acessos e com a instalação do posto da Polícia Federal, responsável pela ponte.

Vem desta época o asfaltamento da rua Mário Neves e a melhoria dos meios de transportes (passam a ser duas as linhas de ônibus, mas a freqüência continua irregular principalmente nos horários noturnos). Atualmente todas as ruas do bairro são asfaltadas.

Na parte mais afetada pelas mudanças existia uma pequena favelização cujos moradores foram remanejados. Atualmente no outro extremo da ilha – ao Norte – é que encontramos uma área com construções precárias. O morro do MIC, apesar da ocupação desordenada, apresenta residências de alvenaria.

Houve um esvaziamento na indústria naval e os grandes estaleiros saíram da ilha, existindo porém algumas pequenas e médias empresas que terceirizam os seus serviços para os grandes estaleiros da região. Apesar disso, o lado de frente para o Porto de Niterói é exclusivamente industrial, existindo uma ponte suspensa ligando-o à ilha do Caju (onde apoiam-se alguns pilares da Ponte Rio-Niterói). Encontramos ainda uma fábrica de sardinha desativada e um cais de barcos pesqueiros bem movimentado, após o fechamento do entreposto de pesca da Praça XV, no Rio de Janeiro.

O comércio do bairro, além do que vende artigos de primeira necessidade (mercado, açougue, padaria, farmácia etc.), apresenta algumas casas especializadas em artigos para a indústria naval e pesqueira e conta ainda com uma agência bancária e fábricas de gelo para abastecer barcos pesqueiros.

Bem servida por equipamentos urbanos, a Ilha possui uma escola estadual, uma escola municipal, uma creche, um posto de saúde, um posto do programa “Médico de Família”, o Centro Social Urbano e recentemente começou a funcionar um Posto Policial (DPO) na entrada do bairro.

O bairro apresenta uma vida noturna intensa, marcada pela presença de vários treilers nas praças locais, principalmente em frente ao Esporte Clube Luzitano, que promove bailes semanais. Concorrido também é o “Bar do Peixe”, conhecido em toda cidade, onde se bebe cerveja acompanhada de peixe-frito fornecido pela casa.

Bairro de vida pacata, onde se coloca cadeira nas calçadas para um bate-papo em noites de verão, apresenta residências típicas de áreas com pouco espaço para construção: terraços cobertos como área de lazer.

A ocupação dos imóveis vagos se dá de forma rápida, propagados verbalmente, pois quase todo morador tem um parente querendo mudar-se para a Ilha, principalmente os portugueses que mantêm tradições familiares muito fortes.

Não há Tags

  

4 Comentários para “Ilha da Conceição”

  1. Hoje, por incrível que pareça, soube da existência da Ilha da Conceição através um programa de rádio que vem logo após o do Antonio Carlos. O comentário foi que a Ilha seria um belo passeio cultural etc etc. Me interessei porque apesar de ser advogada, gosto muitíssimo de conhecer lugares históricos e nossa história. Perguntei a alguns amigos e colegas mas ninguem jamais houviu falar “desse lugar”. Resolvi entrar na internet e observei que existem poucos comentários reais do lugar. Uma das moradoras nascida e criada na ilha, informou que o local está bastante abandonado e esquecido pelas nossas autoridades. Até entendo porque sei exatamente onde têm interesses, além do mais, pelo que entendo, sugaram o que podiam e daí jogaram fora o bagaço. Como sou insistente e curiosa, perguntei a um e a outro e daí encontrei um que já foi a ilha. Não escrevo aqui o que ele me disse mas ficou a recomendação dele que lá eu não fosse. Como só acredito nos meus próprios olhos e apesar de ficar triste, verei como chegar até lá. Um abraço aos “Ilhosos da Conceição.

  2. Belíssima matéria sobre a minha querida Ilha da Conceição, informações antigas que traz aos novos moradores um pouco da nossa história, moro a 48 anos na ilha, vi muitas mudanças, algumas boas outras ruins, mas qual a cidade ou bairro que não tem seus problemas, amo cada vez mais a minha Ilha

  3. OLA SOU MORADORA DA ILHA Á 34 ANOS FUI FORMADA NO COLEGIO ZULEIKA SÓ QUE VCS PRECISAM SE ATUALIZAR MAIS POR QUE NÃO FUNCIONA PARA BAILE O CLUBE LUZITANO,NÃO TEM MAIS TREILERS NÁ NA PRAÇA E ATUALMENTE ABRIRAM UMA CASA DE MASSAGEM ONDE ERA Á ANTIGA FÁBRICA DE GELO QUE É A MAIOR VERGONHA PRA NOS MORADORES QUE JÁ ESTÃO SE FORMANDO PARA FAZER UMA BAIXA ASSINADA PRA TIRAR ISSO DÁQUI E ANTES QUE EU ME ESQUEÇA A INDUSTRIA NAVAL VAI DE VENTO EM POUPA TEMOS VARIAS OPORTUNIDADES DE EMPREGO DENTRO DA ILHA O QUE TENQUE MELHORAR É TRANSITO POR QUE O FLUXO DE CARROS SÃO IMENSO POR TER TANTAS EMPRESAS.

  4. bom dia eu sou um antigo morador da ilha e nos anos 80 fiz um curso de eletricista instalador no cesu e posteriormente vim a perder o diploma do curso gostaria de saber se e possivel receber a segunda via do curso a cima citado

Deixe seu Comentário