A pA palavra Icarahy, em tupi-guarani, subdivide-se em I (água ou rio) e Carahy (sagrado ou bento). Icarahy significa água ou rio sagrado. É um bairro de função polarizadora, o mais populoso e com maior densidade demográfica no contexto municipal. Limita-se com Ingá, Morro do Estado, Centro, Santa Rosa, Vital Brasil, São Francisco e as águas da Baía de Guanabara. Ocupa aproximadamente 2 km² , o que representa 1,4% da área total do município. Tem uma população residente de 62.494 pessoas e densidade demográfica de 33.817 hab/Km².

A origem do bairro remonta à Freguesia de São João de Carahy, parte integrante da Sesmaria dos Índios, concedida a Araribóia em 1568.

Localizavam-se em sua área duas grandes fazendas conhecidas como a Fazenda de Icaraí, cujo dono era Estanislau Teixeira da Mata; e a Fazenda do Cavalão, do Tenente Coronel Antonio José Cardoso Ramalho. O escoamento da produção era feito por mar, através do porto de atracação de Carahy; e por terra, até a estrada do Calimbá, em direção à Praia Grande.

No séc. XIX a Freguesia integrou-se à recém criada Vila Real da Praia Grande. Nesta época, Icaraí ainda era um vasto areal que se estendia desde o mar até as proximidades da atual rua Santa Rosa. Areal coberto por pitangueiras, cajueiros, cactos e vegetação típica de restinga.

Parte das terras pertencia à Igreja. O mosteiro de São Bento adquiriu no ano de 1698 a área que hoje chamamos de Campo de São Bento, onde fora erigido o Outeiro de São João de Icaraí. Na época, a área era um enorme lodaçal devido a presença do rio Icaraí, atualmente canalizado.

Em 1834, com a criação do município neutro, Nictheroy torna-se capital provincial e é elevada à categoria de cidade. Ainda no séc. XIX, Icaraí recebe o seu primeiro plano de arruamento – iniciando-se efetivamente o seu povoamento. O Plano Taulois (1840-41) foi idealizado pelo engenheiro francês Pedro Taulois, no governo do Visconde de Uruguai. Consistia no traçado das ruas em forma de xadrez, ou seja uma malha viária octogonal, com início na praia e término nas proximidades da rua Santa Rosa.

A malha viária facilitou a expansão de Icaraí que passou a ser conhecida como “Cidade Nova da Praia de Icaraí”. Muitas dessas ruas só foram abertas depois de 1854 e receberam nomes de fatos históricos e de pessoas ilustres.

As ruas paralelas à praia receberam os nomes de Vera Cruz, Cabral, Souza, Mem de Sá e Estácio.

As perpendiculares foram denominadas: da Constituição, Independência, Aclamação, Sagração, Fundador, Regeneração, dos Legisladores, Cruzeiro, Estrelas, Reconhecimento/Adicional e Santa Bibiana.

Um dado histórico interessante da época foi a construção, em 1864, do asilo Santa Leopoldina que se instalou na antiga rua da Constituição. Nos primeiros anos do séc. XX (1903) o asilo deixou de pertencer ao Estado e passou para a Irmandade de São Vicente de Paulo, em terrenos doados pela viúva Angélica Maria Franco da Fonseca e que hoje representam extensa área do bairro.

A necessidade do arruamento de Icaraí fez desaparecer a bela estrutura rochosa em forma de arco existente na praia, a Itapuca original, dinamitada para dar lugar ao cais e a rua que ligaram o bairro ao Ingá. Deste período sobreviveram as formações rochosas que vemos ainda hoje neste trecho da praia.

A Pedra da Itapuca e também a Pedra do Índio, transformaram-se em símbolos histórico-paisagísticos não só do bairro, mas também de todo município. Reconhecidos desde a época do Império, foram utilizados como efígie nas cédulas de 200$000 (duzentos mil réis) e nos selos dos Correios e Telégrafos, em 1945.

Outro símbolo paisagístico com reconhecimento para além do bairro é o Campo de São Bento. O projeto, de autoria do engenheiro paisagista belga Arséne Puttemans, foi executado pelo prefeito Pereira Ferraz. O local, que já se chamou Parque Prefeito Ferraz, também foi utilizado para adestramento de tropas na época do Império.

No final do séc. XIX ficou concluída a obra do Jardim Icaraí, entre as ruas da Constituição e da Independência. Este jardim passou por sucessivas transformações no decorrer de sua história, sendo que no ano de 1940 recebeu o busto do Presidente Getúlio Vargas e passou a denominar-se Praça Getúlio Vargas.

Localizado em frente a Praça Getúlio Vargas, no ano de 1932 é inaugurado o Hotel Balneário Casino Icarahy – ocupando o palacete construído em 1916 por Eugen Urban. Este prédio, um dos mais bem planejados de Niterói segundo o padrão “Art Deco” em voga na época, foi demolido em 1939. Deu lugar ao edifício atual, inaugurado pela então primeira-dama Darcy Vargas. O Casino Icarahy funcionou até 30 de abril de 1946, data da proibição do jogo no Brasil. Fechado o cassino, o prédio foi vendido e passou funcionar como hotel-restaurante. Em 1952, depois de algumas reformas, surge o Teatro Cassino Icaraí. Na década de 60, funcionaram nele o Cine Grill e o Cine Cassino, nos espaços anteriormente ocupados pelo Grill-Room e pelo salão de jogos. Em 1964, o prédio passa a ser propriedade do Ministério da Educação e Cultura, vindo a abrigar a Reitoria da UFF a partir de 1967 – um dos mais importantes pólos culturais da cidade.

A praia de Icaraí era o grande atrativo da cidade. Em 1936-37 a Prefeitura, a imprensa e o Clube de Regatas Icaraí – construiram em concreto armado um trampolim no meio da praia projetado pelo Arquiteto Luis Fossati. O trampolim foi dinamitado no final da década de 60 por oferecer perigo aos banhistas.

No período pós-guerra, com o processo de industrialização pelo qual passava o país, o bairro viu crescer a demanda de habitações para a classe média. Houve na época uma migração intra-municipal sobretudo de moradores da Zona Norte da cidade; e migração intra-estadual, principalmente de São Gonçalo e municípios do Norte e Noroeste fluminenses.

A construção de edificações multifamiliares foi a solução adotada pelo capital imobiliário para atender a nova classe social imbuída do desejo de morar à beira-mar. O boom imobiliário atravessa décadas e teve como facilitador os financiamentos do Banco Nacional da Habitação (BNH), a partir do final da década de 60.

Na década de setenta, com a construção da Ponte Rio-Niterói, o bairro consolida-se como centro urbano polarizador e de grande importância para a cidade, com forte concentração de comércio, de serviços e de atividades de lazer.

O modelo de ocupação caracterizado pela contínua substituição de casas isoladas e de prédios de poucos pavimentos por outros prédios maiores e mais altos, intensifica-se sobretudo a partir da orla, onde o valor da terra atinge altas cifras, diminuindo a altura dos prédios e o valor dos imóveis à medida em que as quadras se interiorizam. Prédios luxuosos, de alto padrão construtivo, são erguidos na orla. E prédios de padrão médio e baixo são construídos no interior do bairro, expressando a segregação espacial da paisagem urbana.

A crise econômica dos anos oitenta, associada a super valorização dos preços dos terrenos, obriga as construtoras a se deslocarem para bairros próximos. Nesta época também cresce a ocupação das encostas e morros.

A beleza de Icaraí sempre serviu de inspiração para pintores, poetas e músicos ao longo da história do bairro. Por isso vale a pena lembrar – como síntese-homenagem – os versos da música Icaraí, do compositor Cilico, gravada pela cantora Beth Carvalho, no CD “Cilico e seus amigos”, recém lançado pelo selo Niterói Discos:

…”Icaraí,
Que vem desde a Itapuca
Até a subida da Fróes
Icaraí,
Os poetas já não fazem mais Nictheroy
Canto a beleza, lembro o Gentileza
Histórias de rir.
Quanta Saudade,
O meu peito invade do Petit Paris
Eu sei que o tempo não volta
Que o Trolley faz volta no Canto do Rio
E nas areias sereias olhando o Rio
Eu sei que o tempo não volta
E o Trolley faz volta no Canto do Rio
E nas areias, a melhor vista do Rio”.

Icaraí é o bairro mais povoado da cidade, com a maior densidade demográfica e o mais populoso com 62.494 habitantes, segundo o Censo de 91, o que representa quase 15% da população total da cidade.

CARACTERÍSTICAS ATUAIS E TENDÊNCIAS:
O bairro possui uma posição geográfica privilegiada, assentado sobre uma planície litorânea quaternária, entremeada por morros isolados e limitada pelo maciço costeiro. Suas encostas, sujeitas a erosões e deslizamentos, são objeto de estudo do Plano Diretor, Lei nº 1157 de 29/12/92, que aponta para a contenção e estabilização das mesmas. Destaca-se ainda o rio Icaraí que está canalizado e desemboca no canal Ary Parreiras, na rua do mesmo nome.

Icaraí apresentou um acelerado processo de adensamento demográfico, facilitado pelo predomínio de construções verticalizadas.

A característica de sua população quanto à estratificação social é bastante diversificada, materializando-se principalmente na sua distribuição espacial. Na orla os imóveis luxuosos são ocupados pela classes média e alta e, à medida que as quadras se interiorizam, os imóveis são mais simples e seus moradores de classe média. Relevante também é a presença de aglomerado subnormal (favela) nas encostas dos morros do Cavalão e da Cotia, ocupados por pessoas de baixa renda.

“O predomínio de edifícios de apartamentos esbarra em várias dificuldades e se beneficia de algumas facilidades comparada com a organização política em favelas ou na periferia do bairro. Uma das dificuldades encontradas está contida na própria arquitetura, pois os edifícios aproximam fisicamente os moradores, mas os isola socialmente, freando a mobilização. Outro óbice se refere ao patamar de reivindicação. Os moradores lutam para preservar padrões de vida já estabelecidos ou para elevá-los, e o móvel da mobilização passa freqüentemente pelo meio ambiente, segurança e uso do solo, enquanto nas favelas existentes no bairro, as lutas pautam-se em necessidades cruciais da sobrevivência imediata”. (Mizubuti, 1986:203)

Icaraí possui uma associação de moradores, a AMAI – filiada à Federação das Associações de Moradores de Niterói (FAMNIT).

Bairro residencial com forte concentração de serviços, Icaraí aglutina atividades de comércio, prestação de serviços e do setor informal (ambulantes/camelôs). A distribuição espacial desses serviços concentra-se principalmente nas ruas Coronel Moreira César, Miguel de Frias, Presidente Backer, Pereira da Silva e Lopes Trovão. Lá são encontrados shoppings centers, galerias, lojas, restaurantes, bares e lanchonetes, entre outros. Na rua Gavião Peixoto está o coração financeiro do bairro, com grande concentração de agências bancárias, além de comércio expressivo.

O bairro é bem servido de infra-estrutura urbana: os domicílios são ligados à rede geral de abastecimento de água e ao sistema de esgoto sanitário. Embora este seja antigo, ainda atende a todo o bairro. O lixo é coletado regularmente, inclusive no horário noturno, e as enchentes diminuíram bastante devido a obras de drenagem realizadas recentemente. Estão localizadas em Icaraí colégios tradicionais como a Escola Estadual Joaquim Távora e o Jardim de Infância Julia Cortines, além de um mais recente, a Escola Estadual Paulo de Almeida Campos. O bairro conta ainda com importantes escolas da rede privada.

Icaraí é um centro polarizador em relação a outros bairros e também importante corredor de circulação (avenida Governador Roberto Silveira e Praia de Icaraí), tornando-se bem servido de transportes coletivos, de demandas inter e intramunicipal, e também é grande a circulação de veículos particulares nas suas ruas, o que ocasiona engarrafamentos na hora do “rush”.

Existem duas grandes áreas de lazer: o Campo de São Bento, com suas frondosas árvores e aprazível jardim, atraindo sobretudo crianças e adolescentes; e a Praia de Icaraí, com extensão de quase 2 Km, palco de uma diversidade de práticas desportivas desde as primeiras horas do dia até o final da noite. Toda iluminada e pavimentada, é um elemento de estreitamento das relações sociais, contribuindo também para a urbanidade do bairro. Vários eventos – como o tradicional reveillon, festejos e shows musicais – acontecem o ano inteiro na praia.

A sua vida cultural é uma das mais ricas da cidade, com a presença de cinemas, teatros, centros culturais, entre outros equipamentos.

2 responses to “Icaraí”

  1. CAMPO DE SAO BENTO, quando teremos a liberdade de acesso regular ao mesmo.A solucao nao é justificavel.

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  2. Porque a rua Comendador Queiroz é denominada de adicional? pertencia a outra rua ou foi aberta depois?

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